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02/12/08

RÁPIDAS NÃO SÃO XADREZ - POR RUI MARQUES

Rápidas não são xadrez... todos já ouvimos isto.
Mas como quem o diz normalmente não é grande craque em rápidas, há sempre razões para duvidar...
No entanto como o xadrez é jogado por humanos, com um controle de tempo, é óbvio que este tem influência na qualidade do jogo.
O que se passa é que conforme a qualidade dos lances decresce, os factores “humanos” passam a ser mais importantes, e os erros, sendo muitas vezes retribuidos pelos adversários, nunca são decisivos (excepto o último...).

As aberturas e as suas armadilhas podem ser decisivas – não há tempo para as evitar. Quem é que já não ouviu a célebre frase – esta abertura é só para rápidas!
Factores dinâmicos como a iniciativa, o contra-jogo e as ameaças em geral, tornam-se mais importantes – o material baixa de valor.
Uma peça a mais é uma vantagem relativa...
O relógio, esse sim, é decisivo – até vi um livro que aconselhava, para situações em que ambos os adversários têm menos de 5 segundos, a jogar a peça mais próxima do relógio!

Esta teoria da importância da iniciativa em ritmos rápidos não é propriamente nova (é só ver grandes jogadores de rápidas e semi-rápidas, como o Anand e o Kasimdzhanov).
Para ilustração, eis uma rápida de 5 minutos, jogada na internet, contra um adversário desconhecido, mas com um elo (playchess) semelhante ao meu...

Alemão do Playchess - RFM [B50]
Partida "avulso" PlayChess.Com, 23.08.2008

1.e4 c5
2.Cf3 d6
3.c3 Cf6
4.Bc4 Bg4?

Caindo no barrete. Para vergonha minha já tinha caido neste barrete antes...


5.e5!?
Isto em rápidas é jogar a matar...
[5.Db3 ganha já um peão]
5...Cfd7?
Agora as coisas tornam-se mais graves...
[5...d5!]
6.Db3 e6
7.Dxb7


7...d5?
Afinal o que é uma torre - isto é uma rápida!
[7...Bxf3 8.gxf3 Cb6 seria aceitável - em lentas!]
8.Bb5! Be7
9.Dxa8 0-0
10.Dxa7 Bxf3
11.gxf3


Ambos os lados conseguiram o que queriam - as brancas têm vantagem material decisiva, mas as pretas ainda têm alguns trunfos - vantagem de desenvolvimento, e a estrutura arruinada dos peão brancos - agora vão conseguir a iniciativa
11...Cxe5
12.Be2 d4!
13.f4?
As brancas pensam que podem repelir as peças pretas e ganhar facilmente, mas não é assim tão simples
[13.d3! Convinha parar o peão "d"]

13...Cbc6
14.Da6 Dd5
15.Tf1?

Pronto, dois erros e a situação está invertida - e quem não estiver com atenção nem percebe o que se passou...
[15.Tg1! era o único lance! é preciso deixar a casa f1 para o rei 15...d3 16.fxe5 Cxe5 17.Rf1;
15.0-0? Cf3+ 16.Bxf3 Dxf3 17.h3 f5! 18.Rh2 d3! com ataque decisivo ao rei branco - enquanto as peças brancas observam impotentes]


15...d3!
16.fxe5 Cxe5?!

[16...c4! era o lance correcto, mas afinal isto é uma rápida!]
17.f4?
as brancas insistem no erro!
[17.Rd1 era a unica para sobreviver]

17...De4
está tudo acabado...
18.Tf2 Bh4!
19.fxe5 Dxe2#

0-1

Não tentem fazer isto em casa :-)




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02/11/08

O MESTRE DOS EMPATES - POR RUI MARQUES

O meu amigo Carlos Aguiar, além de um excelente professor de Xadrez (de quem já sairam talentos como o Rafael Teixeira) e um grande Alekhinista, tem uma faceta que nem todos conhecem. É um consumado mestre dos empates!

Que o diga o MI Fernando Silva, que, por amizade, foi jogar um torneio organizado pelo GX Alekhine.
Um após outro, o MI trucidou os adversários (alguns dos quais nem jogavam assim tão mal) até que se defrontou com um obstáculo intransponível – o mestre dos empates!
Durante muitos lances o MI porfiou, procurando uma vitória sempre elusiva, mas no fim o resultado foi o esperado – um empate!
(e dizem as más linguas, que no fim o MI até teve sorte...)

Quanto a mim, já disputei 20 partidas a apontar com o Carlos Aguiar – e nessas 20 partidas – 16 empates!
Segue-se um dos nosso confrontos, mais ou menos típico. O jogo foi disputado num torneio de treino, com um controlo de tempo mais apertado - mas nem por isso o levámos menos a sério – senão não era treino nenhum...

(7) Marques,Rui (2142) - Aguiar,Carlos(2012) [B99]
Treino – GXA, Lisboa (6), 21.03.2008

1.e4 c5
2.Cf3 d6
3.d4 cxd4
4.Cxd4 Cf6
5.Cc3 a6

Mas o que é isto? - a variante Najdorf da Siciliana, uma abertura para empatar?
Trata-se de um estratagema psicológico - induzir o adversário em erro, para o apanhar desprevenido na altura certa, e assim conseguir mais facilmente o empate pretendido!

6.Bg5 e6
7.f4 Be7
8.Df3 Dc7
9.0-0-0 h6
10.Bh4 Cbd7
11.Bd3 b5?!
Uma variante considerada algo inferior pela teoria [melhor é 11...g5! com a ideia de ganhar a casa e5 para os cavalos pretos]



12.e5! Bb7
13.Cxe6! fxe6
14.Bg6+ Rd8
[14...Rf8 15.exf6! e as Brancas conseguem excelente compensação pela dama]

15.exf6?!
após a jogada das pretas o sacrificio da Dama talvez não seja a melhor opção [15.Dh3! e o rei preto no centro garante às brancas um bom ataque pela peça sacrificada]
15...Bxf3
16.fxe7+ Rc8
17.gxf3 d5!
parando ideias de Ce4 e activando a Dama


18.Bg3?!
Algo passivo [18.Td4! Rb7 19.Te1 e as brancas têm boas perspectivas, apesar da desvantagem material]
18...Cf6!
[18...Rb7? 19.f5! era a ideia das brancas]
19.e8D+ Cxe8
20.f5! Dc5
21.fxe6 Cf6


22.e7?
Aqui as considerações materiais sobrepuseram-se aos interesses dinâmicos. Também era dificil resistir à ideia de "sacrificar" uma terceira Dama..
[Depois do correcto 22.The1! as brancas mantêm excelente compensação apesar de estarem bastante atrás na contagem do material - o peão e6 é muito forte.]
22...d4!
[e não 22...Dxe7? 23.Cxd5 Cxd5 24.Txd5 quando o rei preto é um alvo perfeito para as preças brancas]
23.e8D+! Txe8!
[mais forte do que o materialista 23...Cxe8 24.Ce4 quando as pretas estão algo descoordenadas e as brancas não têm debilidades para permitir contra-ataques]
24.Bxe8 dxc3!
Finalmente a Dama preta tem um objectivo de ataque!

25.The1! cxb2+
26.Rxb2 Db4+
27.Rc1 Da3+
[as pretas podiam tentar ganhar com lances como 27...Rb7!? mas, claro, não era esse o objectivo!]
28.Rb1 Db4+
29.Rc1 Da3+
30.Rb1 Db4+
missão cumprida - mais um empate para o curriculum.
1/2-1/2

Resta-me acrescentar que este foi um dos jogos mais curtos que disputámos. O último durou quase 80 lances e acabou em Rei contra Rei.
Outros houve mais curtos, mas porque fui eu que propus empate – estava demasiado preocupado com o resultado...



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19/10/08

O JOGO DA SARDINHA - POR RUI MARQUES

Em Vale de Cambra fiz um bom torneio.
Creio que podia ter feito melhor se não tivesse perdido a seguinte partida:
(trata-se de uma semi-rápida pelo que não se deve criticar demais os erros dos jogadores)

(5) Ulyanovskyy,Viktor(2271) - Marques,Rui(2063) [B51]
Memorial Pedro Parcerias Vale de Cambra (4), 27.09.2008

1.e4 c5
2.Cf3 Cc6
3.Bb5 d6
4.0-0 Bd7
5.c3 Cf6
6.Te1 a6
7.Ba4 c4
8.d4 cxd3
9.Dxd3 e6
10.Bg5!
As brancas conseguem um jogo activo.
As pretas têm que ter cuidado porque ainda não estão desenvolvidas
10...Be7
11.Cbd2 0-0
12.Bc2!?
Com ameaças de e5 e os mates em h7 criam embaraços às pretas

12...Ce5!
Um artificio típico da siciliana, para controlar o centro e reduzir as possibilidades das brancas
13.Cxe5 dxe5
Os peões dobrados controlam o centro e não são fáceis de atacar.
14.Tad1 Dc7
15.Dg3 Ch5!
Tratando de trocar umas peças. As pretas conseguiram igualar o jogo.
16.Dh4 Bxg5
17.Dxg5 Cf4
18.Cf3
[e não 18.g3?? Ch3+]
18...f6
19.Dg4 f5?!
Não havia necessidade disto, mas eu não consegui resistir e quis tomar a iniciativa a qualquer custo.
20.Dg3
O meu adversário, jogador posicional, não podia ter ficado mais contente, e dedica-se a atacar os peões centrais que se rapidamente se tornam vulneráveis.
20...Bc6
21.exf5 Bxf3
22.Dxf3 exf5
23.g3

23...Ch3+?
[23...Cg6! e se 24.Bxf5 Df7 25.g4 Ch4! - era este o tipo de jogo que deiva estar à procura depois do avanço dos peões]
24.Rg2 Cg5
25.Dd5+ Rh8
26.Dd6
As brancas contentam-se com um final superior sem dar oportunidades de contra-jogo.
O computador aconselha a comer os peões todos mas numa semi-rápida,
com pouco tempo, tal politica é arriscada

26...Dc4?!
Continuando com a especulação.
O menor mal era o final. [26...Dxd6 27.Txd6 e4+/=]
27.h4! Ce4
28.Dd5!
E finalmente sou obrigado a entrar no final inferior que andei a pedir desde o lance 19

28...Dxd5
29.Txd5 Cf6
Não é possível defender os peões..

30.Tdxe5 g6
31.T1e2?
[31.Te7! era lógico e bom.
As brancas estão ganhas.
Mas acham que tudo serve, e que, desde que não deêm demasiadas contra-chances,
a posição se vai ganhar sozinha -
o que acontece frequentemente nas mãos de um mestre contra um jogador mais fraco.]


31...f4!
Mas as pretas, com tempo para respirar, encontram o grão de areia para pôr na engrenagem do mestre...
32.Te7?
Claro que comer o peão não era desejável.
Mas as brancas não vêm que o lance tem outra ideia... [32.gxf4?! Ch5!; 32.Td2!+-]
32...Cd5!
33.Txb7?? f3+!
34.Rf1 fxe2+
35.Rxe2
Aqui o meu adversário parou para recuperar a compostura.
Como tinhamos os dois cerca de dois minutos no relógio e ele ficou com menos de um, eu passei a estar ganho por posição e por tempo.
No entanto, isto de jogar em apuros de tempo tem muito que se lhe diga e eu consegui comer-lhe as peças *quase* todas mas acabei por perder por tempo...
Não dou o resto da partida, porque sinceramente não me consigo lembrar – em semi-rápidas não se aponta a partida...
1-0(Tempo)

Depois de uma derrota destas é duro enfrentar os comentários dos fans e amigos, que estiveram a torcer por nós até ao último segundo.


Um amigo meu, grande craque em matraquilhos, disse-me o seguinte:
- Viu-se mesmo porque é que perdeste – ele mexe as mãos mais depressa do que tu!
Tens que treinar essas mãos – jogar à sardinha!


Mais tarde comentei isto com os amigos do Alekhine.
Alguns riram-se, mas houve um que levou o assunto a sério, e que me respondeu que isso de jogar à sardinha devia ser uma táctica da escola soviética, de que o Viktor Ulyanovskyy é um ilustre representante – talvez até da escola do Botvinnik, que produziu campeões como o Karpov e o Kasparov!


Hhmm....




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