03/07/09

DE CABO VERDE, SEM TEMPO DE RELEXÃO


MINDELO - VIRIATOVITCH CHESS


Ontem, enquanto decorria a 1.ª sessão da fase intercalar do Regional Individual de S. Vicente (Cabo Verde), competição que estou a dirigir, dei por mim a pensar que o xadrez é uma “doença” sem cura.

Uma doença boa da qual pensava já estar curado. Puro engano. Mas, a história conta-se facilmente.

Desde 1984, altura em que não renovei o contrato de trabalho que tinha com a Câmara Municipal de Coruche (onde, entre outras coisas, era animador de xadrez), que não tinha contacto, a nível de competição e de organização, com a modalidade.

Por questões de ordem familiar e profissional, o xadrez afastou-se da minha vida (ou afastei-me dele) e durante cerca de 24 anos andamos de costas voltadas.

Para quem durante cerca de 9 anos (de 1975 a 1984), ocupou algumas das suas horas livres (e outras que passaram a ser) de jovem (desde os 13 até aos 22 anos), a jogar (mal) e a organizar (bem) eventos que promovessem o xadrez, primeiro em Ulme (Chamusca), depois em Santarém e Coruche, passar à “reforma” certamente que não era uma situação duradoura.

Um dia a “reforma” terminaria e, é assim, que por razões de ordem pessoal e profissional, um bonito dia decidi vir viver para Cabo Verde, mais concretamente para a cidade do Mindelo na Ilha de S. Vicente. Desde a minha chegada e durante cerca de 7 anos que o xadrez se foi aproximando de mim. Primeiro, ao ser um dos vencedores de um concurso de problemas organizado por um jornal local e depois, na sequência desse prémio, a tentativa de organizar um match por correspondência entre Portugal e Cabo Verde, que ainda chegou a iniciar-se mas que por falta de resposta dos locais não chegou a ter o final desejado.

É assim, que num belo dia, aparecem no meu estabelecimento, o Carlos Mões e o Éder Pereira para me convidarem a participar num torneio a realizar num dos hotéis aqui da cidade. Perguntei quando começava o torneio, ao qual me responderem que era naquele dia às 20.00 Horas. Fiquei indeciso, mas lá me resolvi a ir ver o que me esperava.

O torneio, para o qual não vi qualquer regulamento duvidando, até hoje, da sua existência, era constituído por 2 poules preliminares, a apurar, julgo que 3 jogadores de cada grupo para a poule final. Nesta fase, cada jogador jogaria 8 ou 9 partidas no seu grupo. Ao verificar o emparceiramento, apercebo-me que nas partidas que eu teria de jogar, só em 3 é que conduzia as peças brancas, facto pelo qual perguntei logo como tinha sido feito o emparceiramento. Até hoje ainda não percebi a explicação que me deram.

Antes de iniciar a primeira partida que disputei, verificando que na mesa estava a folha de anotação e o relógio, pergunto qual era o tempo de reflexão.

Aqui a resposta é a mais surpreendente que me podia acontecer, pois não houve resposta mas sim pergunta: qual tempo de reflexão? O que é isso?

Perante isto, “disparo”: então para que é que serve o relógio? A resposta não podia ser mais intrigante: para marcar o tempo.

É claro que este diálogo não estava a fazer qualquer sentido, facto pelo qual lá expliquei o que era o tempo de reflexão, exemplificando com 2:30H para 45 lances ou 2.00 H para 36 lances. Ficaram duvidosos e a olhar-me de soslaio, como quem diz “o que é que este gajo quer? Deve pensar que é bom.”

Não terminei o torneio porque entretanto adoeci, mas nas outras 2 ou 3 partidas que fiz, continuou a não haver tempo de reflexão.

Passado algum tempo, os organizadores do torneio, pretendendo reactivar a Associação de Xadrez de S. Vicente que estava sem actividade há uns bons anos, convidaram-me a participar numa reunião para esse fim. E é assim que de reunião em reunião, em Setembro de 2008, vejo-me empossado no cargo de vice-presidente a AXSV.

Na primeira reunião da novel direcção da Associação, o Presidente, que passado pouco tempo, devido a doença, viria a abandonar o cargo, propôs a realização de um torneio entre os 2 primeiros do torneio que atrás referi e os 2 primeiros de um torneio que se tinha realizado na capital. Fiquei a matutar naquela proposta e achei que um torneio com 4 jogadores era pouco, havia que fazer mais para divulgar o xadrez. Lá coloquei os meus contactos em marcha e na reunião seguinte apresentei a proposta para a realização dum Festival de Xadrez contanto com a presença do campeão de Portugal o GM António Fernandes. Ficaram todos a olhar para mim, certamente a pensar “este gajo é doido, alguma vez consegue fazer isto?”.

A verdade é que, já sem a colaboração do presidente, o Festival se realizou e o António Fernandes foi o cabeça de cartaz, já se realizaram o Regional de Rápidas, o match S. Vicente – St.º Antão, a primeira fase do Regional, a edição de um boletim, a criação de um site na net.

Voltando a ontem, e à 1.ª sessão da fase intermédia do Regional, olhando para aquelas mesas, equipadas com relógios digitais e sabendo que as partidas do Campeonato têm como tempo de reflexão 1:30H + 30 s, virei-me para o Carlos Mões e perguntei-lhe: “lembras-te daquele torneio quando perguntei qual era o tempo de reflexão? Lembras-te quando me disseram que não sabiam o que era isso e que depois perguntei para que serviam os relógios?”. Rimo-nos os dois. Depois confessou-me que quando apresentei a proposta de trazer o António Fernandes pensaram que eu era doido.

É assim que esta boa “doença” voltou e permite que aqui já se jogue com regras, alguma qualidade e incerteza quanto a vencedores e vencidos.

Falando agora do Regional, na 1.ª sessão não houve surpresas, ou seja Alessandro Mazzonni, Eder Pereira e Daniel Lopes, venceram os seus adversários, respectivamente, Aires Fortes, Jorge Almeida e Antunio Barbosa.

Á partida, o jogo entre Natalino Silva e Arlindo Fonseca, era o que suscitava mais dúvidas relativamente ao resultado. É essa partida que abaixo reproduzimos, para que possam atestar a força dos n/jogadores.

Para hoje, na 2.ª sessão, prevê-se uma partida escaldante entre Alessandro Mazzonni e Eder Pereira, dois dos principais candidatos à vitória final, em que o italiano radicado em S. Vicente há bastantes anos, conduzirá as peças brancas.

Os restantes jogos são:

Aires Fortes – Arlindo Fonseca

Antunio Barbosa – Natalino Silva

Jorge Almeida – Daniel Lopes





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01/07/09

PORQUE NÃO SOMOS TODOS MESTRES DE XADREZ ? - PARTE II


FERNANDO PINHO - VIRIATOVITCH CHESS

Já lá vai algum tempo desde que publiquei "Porque não somos todos Mestres de xadrez ?".
Esse post que pode ser visto AQUI tentava dar uma resposta à questão e era ilustrado com uma partida do meu velho amigo Fernando Moreira de Pinho.

Vou voltar à contenda, utilizando uma vez mais uma partida de "Pinhovitch".

Esta partida podia ter como titulo:
"O gajo estava bem melhor mas não viu táctica" ^_^

Já agora, querem ver a partida por dentro ?
Então, sigam a partida havendo pelo meio alguns cometários via MSN na altura em que o Fernando "Pinhovitch" me mostrou o dramático joguinho.

Legenda:
"Gajo" = Mestre FIDE de ocasião com um nome dificil de repetir. -)

FM Lasinskas Povilas (2242) - Fernando Pinho
Open Internacional Municipio Carlos I, Sanxenxo - Galicia, 2009
ECO: D31

"Depois de ver na base de dados na vespera...
Depois de ver as partidas, vi que seria muito dificil
e por isso...não estudei nada de especial !!"

1.d4 e6;

"O gajo estava a jogar muitas vezes, 2. Bg5 e por isso provoquei a ver se ele jogava Francesa."

2.c4;

[ 2.e4 ]

2...d5;

[ 2...Nf6 3.Nc3 ]

3.Nc3 c6;

[ 3...Be7 ]

4.e4;

[ 4.e3 Nf6 ]

4...dxe4 5.Nxe4 Nf6;

[ 5...Bb4+ ]

6.Nxf6+ Qxf6 7.Nf3 Bb4+;

[ 7...Nd7 ]

8.Bd2 Qe7 ?!; Este duvidoso lance deve ser novidade.

[ 8...Bxd2+ ]

9.Bd3 Nd7 10.0-0 Bd6 11.Qc2;

[ 11.Re1; 11.Qe2 ]

11...Nf6;

[ 11...h6 12.Bc3 0-0 13.Rad1 +/- ]

12.Bg5 Qc7 !?; O Pinho, fiel ao seu estilo, começa a tentar pescar em àguas turvas.
" E agora, Pinhovitch começa a tentar criar iniciativa !"

[ 12...h6 ]

13.Rfe1 Ng4; " É o festival ! O gajo noto muito vermelho."

14.h3;

"Levantasse, e vai dar uma volta...
Eu mantenho alguma calma, pois o homem é que tem de ganhar.
Ele entretanto regressa à mesa."

14...,h6;

"E proponho empate (tablas, em espanhol), sabendo que não iria aceitar e para o descontrolar. Ele não disse nada."

15.Bh4 g5 ?; Mais um dos tais lances psicológicos que só não vale contra computadores.

" Continua a ser o meu estilo a imperar. Estou nas minhas sete quintas !"

[ 15...Nf6 ]

16.hxg4 ?; O Mestre FIDE lituano pensa estar a caminhar num campo de minas !

[ 16.Bg3 Bxg3 17.fxg3 Nf6 18.Qf2 + - Nd7 19.Rf1 0-0
20.Rae1 c5 21.g4 +/- ]

16...gxh4 17.Nxh4;

[ 17.c5 ]

17...Rg8 18.Qe2 ?!;

[ 18.Nf5; 18.Re4 ]

18...Be7 ?; Uma perdida de tempo que deixa as negras em desvantagem.
Há que trabalhar estes pormenores.

[ 18...Bd7 ! 19.c5 Bh2+ 20.Kh1 0-0-0 21.Nf3 Bf4 22.g3 Bg5 23.b4 +/= ]

19.Nf3 Bd7;

[ 19...Rxg4 20.Ne5 Rg5 21.Qf3 +/- Bd6 22.Ng4 Be7 23.Rad1, a posição das brancas é avassaladora;
19...Qf4 20.Ne5 Qxd4 21.Qf3 Rg7 22.Be4 +/- ]

20.Ne5 0-0-0; Não há nada a fazer, ele é mesmo assim.

[ 20...Rg7 21.d5 + - ]

21.Nxf7 + - Rdf8 22.Ne5 Rf4 23.Nxd7;

[ 23.Qe3 ]

23...Rfxg4 24.Qxe6 ??; Meus amigos...poderia procurar uma melhor maneira de dizer isto, mas, nenhuma palavra teria exactamente a força e o sentido real que desejo dar a este lance do Mestre FIDE de quase 2 metros de altura...
Que grande cagada !!

[ 24.Ne5 + - Rxg2+ 25.Kh1 Bd6 26.Ng4 R2xg4 27.Qxe6+ Kd8 28.Bf5 Rh4+
29.Bh3 Rf8 30.Re3 Bf4 31.Re4 e as negras não têm nada ]

24...Rxg2+ 25.Kf1;

" Reflecti 2 minutos. Já via mates por todo o lado !"

25...,Rxf2+ ! 26.Kxf2; "Cortiço", tens mate em 3 !

" Joguei rápido este lance.
Estava convicto que ganhava e pensei que Df4 não dava ainda...
Df4`+ é que era !
Tinha 10 mimutos e dava muito tempo para ver a combinação Df4, Tg2, Dd2 Mate."



26...,Qh2+ ??;

[ 26...Qf4+ 27.Ke2 Rg2+ 28.Kd1 Qd2# Mate ! ]

27.Kf3 ??; Olha outra ! "Cortiço", agora tens mate em 4 !!

[ 27.Ke3 + - Rg3+ 28.Ke4 Qh4+ 29.Ke5 Qg5+ 30.Qf5 Rxd3 31.Nc5+ Qxf5+
32.Kxf5 Bxc5 33.dxc5, com uma torre a menos, as negras só podem abandonar aqui.]

27...Rg3+ ??; Como dizia o meu saudoso amigo Jorge Perestrelo "Minha Nossa Senhora !
Como é possivel ?"

[ 27...Qg2+ 28.Kf4 Bg5+ 29.Kf5
( 29.Ke5 Qg3+ 30.Ke4
( 30.Kf5 Qf4# )
30...Qf4#;
29...Qf3+ 30.Ke5 Qf4# ]

28.Ke4 + - Qg2+ 29.Ke5 Rg5+ 30.Bf5 Qh2+ 31.Ke4 Qg2+ 32.Kd3 Qf3+

33.Re3 Qxf5+; " E abandonei."
1-0

"Ele disse que eu tinha o jogo ganho.
Apertei-lhe a mão e pedi para analisar comigo para ver o que tinha acontecido e pela primeira vez em Espanha o gajo não quis comentar e saiu quase a correr da sala !"

(Ainda me estou a rir com esta última frase do Pinho sobre a partida...)

De salientar nesta edição 2009 do Open Internacional Municipio Carlos I, Sanxenxo, em Pontevedra, que o Fernando deixou escapar este Mestre FIDE, mas que conseguiu "tablas" com um outro, além de ter ganho o prémio de melhor jogador com menos de 2000 pontos elo.
Quem sabe, para o ano eu também apareça por Sanxenso - Pontevedra, bem pertinho da fronteira do nosso alto Minho.
Diz, quem costuma participar neste Open, que esta é uma óptima maneira de jogar xadrez e passar férias sendo, como sempre acontece nos torneios em Espanha, quem lá vai muito bem tratado seja ou não um xadrezista credenciado.

Fica mais uma vez a pergunta:
- Porque não somos todos Mestres de xadrez ?

Eu diria que, alguns vão a caminho de o ser, a seu tempo, com a sua pouca disponibilidade a que uma vida de trabalho os obriga, desde que continuem a jogar sem medos e não deixem a sua teimosia morrer.


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