18/10/08

STREETFIGHTING CHESS, CRITICA AO LIVRO - POR RUI MARQUES


Saiu não há muito tempo o livro Street Fighting Chess, pelo escocês Andrew Burnett.
É sempre de desconfiar quando um livro de Xadrez não é escrito por um mestre – afinal não são os mestres os detentores da verdade xadrezistica?
Talvez sim, mas para um jogador mediano, que não tem grandes hipóteses de chegar ao top, talvez uma aproximação mais pragmática
(e menos “pura”)
tenha melhores resultados, quer a nível de ganhar torneios, subir uns pontitos no elo, ou simplesmente fazer boas partidas.
E o autor não sendo mestre, é sem dúvida um veterano dos torneios abertos e já derrotou um bom número de GMs, vindo com o livro partilhar a sua experiência xadrezistica.
O livro advoga uma aproximação de ataque ao xadrez
(o titulo do primeiro capítulo – The king must die – é revelador),
baseado na luta pela iniciativa desde o primeiro lance.
O livro cobre os vários aspectos que qualquer jogador vai inevitavelmente encontrar ao longo da sua carreira – desde capítulos sobre a abertura, meio, e final, como questões mais práticas como fugir à preparação dos adversários, jogar posições dificeis, lidar com as derrotas, enfrentar jogadores mais fortes e a questão sempre presente no xadrez do jogo psicológico
(mind games).
Os pontos de vista do autor parecem-me excelentes, e quando muito levantarão questões para fazer o leitor pensar pela sua própria cabeça, que é afinal o que é preciso para jogar bem Xadrez.
São apresentados três jogadores modelo para o Streetfighter – Mikhail Tal
(dispensa comentários),
Bent Larsen
(não tão famoso, mas igualmente importante)
e o escocês Paul Motwani
(afinal sempre convém ter um héroi mais próximo da terra).
O livro conclui com alguns exercicios em que o leitor deve encontrar a melhor maneira de lutar pela iniciativa ou aproveitá-la.

Acho que o livro é excelente – a questão é que apesar de pôr sempre as coisas pelo ponto de vista do ataque, o autor percorre uma série de temas que são essenciais para jogar bem em geral, e que muitos jogadores medianos ou ignoram, ou sistemáticamente não praticam – coisas como tentar ver um lance mais à frente, a importância das tácticas para fins que não o mate directo ou o ganho de material, a noção de que muitas vezes o ataque não acaba com a troca das damas etc,etc.
Talvez, a única lacuna seja a parte da defesa, mas afinal trata-se de um livro sobre ataque!
No entanto, mesmo que o leitor não seja
(nem pretenda ser)
um jogador de ataque, mas sim um posicional e/ou materialista, e apelide "os streetfighters" com a palavra mais portuguesa de “barreteiros”, o livro vale a pena – dá para aprender sobre xadrez e ver as armadlihas que os terríveis "streetfighters"(barreteiros!) lhe preparam para o tirar dos seus caminhos tranquilos e posicionais...

Para concluir quero mostrar dois exemplos da minha prática/observação que, a meu ver, validam de algum modo certas opiniões expressas no livro.
Se, o leitor achar estes exemplos interessantes, vai encontrar muito melhor no livro...

No capítulo sobre finais, que o autor diz que prefiria não ter que escrever
(ou seja acharia melhor ter dado mate antes de chegar ao final...)
é defendida a ideia de que o rei pode sempre levar mate.

Ora vejam o seguinte exemplo:

Igor Kovtun – Márcio Catarino
Cela – 2008

Na posição do diagrama, bom era 1. ... Bc2! E se 2. Rg4?? (unica para defender o peão) Bd1#! Mate com um bispo sózinho!

A partida que se segue é contra o Carlos Oliveira, definitivamente um streetfighter português.
Esta partida veio-me à cabeça quando li o livro, por ilustrar tantos pontos nele presentes, especialmente a luta pela iniciativa.
No entanto, ao contrário do livro, aqui a defesa acaba por triunfar e o jogo acaba num empate...

Oliveira,Carlos (2125) - Marques,Rui (2123) [D44]
BMRR Grandella Lisboa (3), 19.07.2007
1.d4 d5
2.c4 c6
3.Cf3 Cf6
4.Cc3 e6
5.Bg5 h6
6.Bh4 dxc4
7.e4 g5
8.e5!?
Seguindo o conselho, vital para os streetfighters, de sair da teoria relativamente cedo
8...Cd5
9.Bg3 b5
10.h4 g4
11.Cd2 h5
12.Cce4 Bh6!?
As pretas também teêm algumas ideias...
13.Cd6+ Re7
14.a4?!
permitindo o plano das pretas [14.Cxc8+ e as brancas devem ter alguma vantagem, dados os buracos nas casas pretas e a possibilidade Ce4-d6 das brancas]
14...Da5!
15.axb5 Bxd2+
Era esta a ideia das pretas e agora?
16.Re2!
afinal as brancas também tinham ideias! A dama e o Bispo estão atacados!



16...Cc3+!!
mas havia uma contra-contra ideia!
17.bxc3
[17 Rd2 Cb1+!! (e não Cxd1+?? Txa5+-) Re3 Dxa1]
17... Dxc3
18.Dxd2 Dxa1
19.Db4
Claro que Dg5+ levava a empate por xeque perpétuo - mas os streetfighters querem mesmo dar mate e não perpétuo! A ameaça de mate em dois (Cf5+) não é propriamente subtil, mas ameaçar mate tem sempre um efeito psicológico no adversário...


19...Rf8!?
Mais uma vez as pretas também têm ideias próprias... Bd7 talvez fosse melhor, com a ideia de responder a Cf5+ com Rd8 e tentar aproveitar a vantagem material. Mas os streetfighters não têm demasiado respeito pelo material... A iniciativa e o ataque são mais importantes!
20.Cxc8+ Rg7
21.Cd6 cxb5
22.Dxb5 Cc6!
Continuando com a ideia - desembaraçar-se das peças da ala de dama para poder ir com as torres atrás do rei branco!
23.Dxc6 Tab8
24.Dxc4
Por seu lado as brancas seguem o conselho, muitas vezes bom, de tomar o máximo de material, para o poder devolver na altura certa
24...Tb2+
25.Re3 Thb8?
um "blunder"... [25...De1+! - perseguir imediatamente o rei branco mantém o jogo dentro dos limites do empate]

26.Rf4?
Mas as brancas perdem a oportunidade! [26.Cf5+!! exf5? 27.Dxf7+!! revelando que mesmo para os streetfighters a defesa é importante! as brancas devolvem material para entrar num final ganhador! 27...Rxf7 28.Bc4+ Re7 29.Txa1+-]
26...T2b4
O jogo está ao rubro. A luta torna-se completamente irracional e eu abstenho-me de grandes análises nesta fase e convido o leitor a tentar descobrir a verdade (quem sabe talvez com ajuda do seu fiel amigo Rybka). O facto é que com o relógio a contar a posição é muito dificil... para os dois lados.
27.Dc2?
[27.Bd3! Dxh1 28.Dc7! - devolver material para contra-atacar...]
27...Txd4+?
[27...Dxd4+! ganha, mas é preciso ver como]
28.Ce4 Tb1?!
As pretas, depois o rei branco ter conseguido fugir para f4, sentem-se frustradas e atiram-se ao material... [28...Txe4+ é correcto e empata, mas mais uma vez é preciso calcular bem]
29.f3 Txf1
30.Txf1 Dxf1
Finalmente o jogo torna-se mais ou menos racional. O rei branco está relativamente seguro em f4 e as brancas têm provavelmente uma ligeira vantagem. Mas o jogo foi dificil e o tempo escasseia...


31.Bf2??
Finalmente o meu adversário comete um erro crasso, que lhe devia ter custado a partida.
31...Dxg2!
32.Re3 Tb4??
Mas eu também falho, por não ver uma contra-chance! [32...Td5-+ e as brancas estão feitas num oito]
33.Cg5!
E agora, são as pretas que estão em maus lençois!

33...Tb7!
Única para não perder de imediato
34.Dh7+ Rf8
35.Cxe6+! Re7!
36.Cd4

36...Tb3+!
Mais uma vez as pretas encontram o único lance para não perder! [36...Tb2? 37.Cf5+ Re6 38.Dh6+! com ataque ganhador - a combinação da dama com o cavalo é demasiado forte.]
37.Cxb3 Dxf3+
38.Rd4 Dxf2+
39.Rc4!? Df4+?
Outro erro embaraçoso. [39...g3! e o peão g3 é suficientemente perigoso para empatar o jogo - as peças brancas não têm cordenação suficiente para fazer estragos a tempo]

40.Cd4!
Defendendo o peão e5 com o duplo em c6! As pretas estão outra vez em apuros!
40...Dc1+
41.Rd5 Dh1+
42.De4
Única para tentar ganhar. Senão as pretas dão sempre xeque e o rei não se consegue esconder. [42.Rc5 Dc1+]
42...Dxe4+
Não é que o final seja apelativo, mas esta troca é obviamente obrigatória.
43.Rxe4 Rd7



44.Cf5?
Permitindo finalmente às pretas um jogo fácil. [O lance de espera 44.Re3!? tornava as coisas bem mais dificeis - a ideia é que 44... a5?? perde o peão “a” para 45 Cb3! (45 ... a4 46 Cc5+) e as brancas ganham. A tarefa das pretas seria bem mais dificil neste caso.]
44...a5!
Agora o final está empatado - no entanto, não esquecer - os streetfighters jogam até ao fim! Neste caso não houve mais aventuras, mas nunca se sabe...
45.Cg3 a4
46.Rd4 a3
47.Rc3 Re6
48.Cxh5 Rxe5
49.Cg3 f5
50.h5 Rf6
51.h6 f4
52.h7 Rg7
53.Ch5+ Rxh7
54.Cxf4 g3
1/2-1/2




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1 comentário:

  1. Muito interessante crítica!

    Alberto, o barreteiro

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